Meia noite. Ouço estampidos. Vejo fugas de seres desesperados em estado de choque sob fachos de luzes que povoam o céu noturno. Agoniados, buscam abrigo debaixo de carros, ou para os fundos das casas; seus corações palpitam prestes a saírem pelas bocas. Olho para cima e, mais uma vez, vejo desalento. Outros, irracionais; desta vez, os alados em vôos desvairados fogem para a serra num ato não menos trágico em busca de quem sabe, livrar-se do inferno criado racionalmente pelo homem para deleite dos próprios homens com o intento de brindarem a virada. A virada? A virada do que? De repente em meio à multidão que aflue de todos os cantos almejando o melhor lugar ao redor das toneladas de pólvoras fincadas sob a areia observo e ouço gritos, soluços de recém-nascidos, crianças de colo e uivos insanos de pequeninos cães caprichosamente acompanhados de seus pais e pseudo-madames respectivamente. Qual ser, em sã consciência levaria sua prole ou seu animal de estimação para um evento cujo espetáculo principal é a queima de toneladas de bombas em meio ao ensurdecedor barulho? O evento se dá. Uma hora após a passagem de sei lá o que, centenas, talvez milhares de garrafas espalhadas sobre o solo das calçadas, gramados, orla da praia; muitas, espatifadas espalhando cacos por todo o lado, apenas para satisfazer os "mentecaptos" do som que estas produzem quando estouram pelo chão.
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